A Polícia Militar de Minas Gerais despejou, nessa terça-feira (1º), famílias que ocupavam uma área rural conhecida como Fazenda Fundo Bacuri, em Uberlândia (MG), ligada ao Banco Master. A ocupação havia sido realizada em 30 de agosto pelo Movimento Terra, Trabalho e Liberdade (MTL), como forma de denunciar a situação da propriedade e reivindicar o cumprimento da função social da terra. A ação policial ocorreu em meio a um cerco à área e foi marcada por restrições à entrada de alimentos, água, produtos de higiene, além de impedir o acesso da imprensa.
Segundo informações divulgadas pelo movimento, a ocupação reuniu aproximadamente 150 famílias, muitas delas já cadastradas junto ao Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). Entre as famílias estão integrantes do Acampamento MTL Bob Vive, constituído após o assassinato de Robinson dos Santos Guedes, conhecido como Bob, em 2025.
Em vídeo gravado no local, a advogada Marilda Terezinha, que chegou a ser algemada e detida pelos policiais, questionou a atuação da PM por não haver ordem judicial determinando a desocupação da área. A advogada também afirmou que o movimento havia recorrido à Justiça para garantir os direitos das famílias e o acesso dos advogados ao local.
A Associação dos Docentes da Universidade Federal de Uberlândia (Adufu-Seção Sindical do ANDES-SN), que assinou nota de apoio à ocupação, afirmou que a situação das famílias demonstrou a necessidade de uma resposta do Estado que assegure o direito à terra, ao trabalho e à dignidade. A entidade e as demais organizações signatárias também defenderam a realização das vistorias necessárias nas áreas indicadas pelo movimento e o cumprimento da função social da propriedade.
Ainda em nota, a seção sindical e as demais entidades signatárias manifestaram “discordância e indignação” diante da atuação da Polícia Militar e classificaram o despejo como ilegal, por ter ocorrido sem mandado judicial.
As entidades também criticaram o que consideram tratamento desigual por parte do Estado. “Não pode haver, em uma sociedade democrática, dois pesos e duas medidas: rigor e criminalização para os trabalhadores que lutam por seus direitos e tolerância diante de eventuais práticas lesivas ao patrimônio público, ao meio ambiente ou aos interesses da sociedade”, afirmaram.
Alimentos e água
A atuação policial também afetou a entrada de alimentos, água e produtos de higiene na área. Forças policiais interditaram a rodovia que dá acesso à propriedade.
Jorgetânia Ferreira, presidenta da Adufu SSind., relatou que entidades foram ao local para entregar alimentos, toalhas e produtos de higiene, mas tiveram o acesso impedido pela Polícia Militar.
De acordo com a diretora, as entidades haviam recebido autorização para realizar entregas três vezes ao dia, mas não conseguiram sequer levar o café da manhã às pessoas acampadas. “É sobre o direito humano à água, é sobre o direito humano à alimentação e à higiene pessoal”, afirmou.
Projeto imobiliário
A ocupação também colocou em debate a destinação da extensa área rural. Conforme a nota das entidades, o local estaria destinado a empreendimentos imobiliários e à instalação de um grande Data Center, anunciado com elevados investimentos e promessa de geração de empregos. As entidades que assinam a nota de apoio defendem que eventuais irregularidades sejam rigorosamente apuradas pelos órgãos competentes e reivindicam transparência e participação social nos projetos previstos para a área.
Em nota, o Movimento Terra, Trabalho e Liberdade denunciou uma suposta valorização artificial do terreno em Uberlândia, que teria passado de R$ 14 milhões, em 2019, para R$ 76 milhões, em 2025. Segundo o movimento, o negócio envolveria gestoras e consultorias também investigadas por fraudes no Banco Master.
Foto de Capa: Divulgação MTL